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O ciclo “dentro ou fora do ralo” (um outro mundo possível II)

21/01/2012

O ciclo “dentro ou fora do ralo” (um outro mundo possível II)

Como saber quem é invejoso ou quantos invejosos existem no mundo? Para tentar esclarecer tal assunto ou sua complexidade, teríamos de adentrar no tema “paixões”, que também é um pólo diametralmente oposto ao que o racionalismo propõe. Tal assunto seria de uma abrangência muito ampla, todavia, se sugerimos no texto antecedente, o vínculo ao “mito adâmico”, é natural que pensemos num tipo de paixão ligada ao corpo ou ao erotismo, não sendo poucos os autores que o definem como a origem de todas as paixões.

Como conciliar os costumes existentes em duas cidades distintas e distantes, mas com a mesma língua e potencialidade de comunicação? Para tentar esclarecer tal assunto ou a possibilidade de equilíbrio nos costumes de tais cidades, optamos pela definição intitulada “ciclo dentro ou fora do ralo”, isto é, através do conceito de algo que esteja “dentro” e algo “fora”, passaremos a identificar o comportamento em tais cidades e o princípio que orienta tal comportamento, a paixão.

Através da história, podemos verificar a existência de pessoas dedicadas a uma vida mais reclusa e outras, que sempre estiveram na “boca do povo”. Mas qual seria o principal motivo ou a origem daquilo que faz com que isto aconteça? Obviamente que se pensará que algumas pessoas conseguem permanecer mais “separadas” ou “escondidas” que outras. Assim por exemplo, é que os costumes dos faraós egípcios antigos permaneceram ocultos ao povo. Os hábitos da plebe romana eram separados dos hábitos da vida dos governantes, ainda que daí se deriva o conceito de “res pública”. Ao tempo da industrialização, a classe dominante não só separou, mas alienou a classe dominada que ficou submetida ao trabalho alienado, fragmentado, repetitivo e mecânico de onde foi retirado todo prazer. Portanto, muitos ideais medievais religiosos, contribuíram para que a idéia da separação entre algo que esteja “fora”, como o ócio (mãe de todos os vícios), a sensualidade (cuja tentação faz desviar o homem), enfim, as paixões; e algo “dentro”, como o trabalho como meio de fugir da tentação e a condição de purificação, o qual deve submeter o corpo, de modo que se torne não apenas um freio para o sexo, mas um fator a promover a dessexualização e deserotização do corpo.

Assim também supomos a existência de duas cidades, uma que desenvolve costumes definidos como “mais exteriores”, ou, ligados às paixões e outra cidade, cuja orientação é voltada para costumes mais repressivos, ou “inferiores”. A primeira cidade naturalmente formaria uma opinião de que a cidade vizinha possa se tratar de um presídio, tal o modo de repressão que eventualmente sentem nela. Obviamente que a opinião da segunda sobre a primeira, seria a de libertinagem.

Ainda que não possamos medir o resultado do trabalho em ambas as cidades, principalmente porque ele é visto com orientação diferente nas duas cidades, isto é, enquanto o trabalho na primeira cidade visa a levar os indivíduos para “fora”, ou para a liberação das paixões, na outra, o trabalho leva os indivíduos para a contenção delas, ou a repressão. E assim se vai formando a polaridade entre razão e paixão. Portanto, se existir uma forma única de governo sobre tais cidades, a visão que cada uma delas tem da outra, será sempre de aversão, ou contrária, porém, um dos parâmetros de um tal governo, seria uma forma de medida de intensidade desta polaridade, isto é, mesmo que profissionais de diferentes áreas venham a contribuir com novos métodos para que seja possível realizar o objetivo ou ideal de cada uma delas, os conflitos se mostrarão sempre na forma de “índices de criminalidade”, daí decorrendo uma forma de experiência específica das autoridades policiais sobre os indivíduos existentes nestas cidades, os quais, se habilitados, poderiam abstrair num estudo de “princípios de medição de graus de inveja” ou da “existência ou não da inveja”, ou ainda, uma idéia de como definir quem seja invejoso, ou se tal conceito ainda subsiste.

Enfim, para aqueles que julgam que a inveja não seja algo tão complexo para ser definida, ou que talvez tenham receituário mais caseiro ou mítico contra a inveja, poderíamos enfim usar de metáforas da linguagem para definir um tal comportamento divisório entre dois mundos possíveis: “dentro ou fora do ralo”, e o ciclo que ele inaugura. O ralo, como divisão entre dois mundos distintos, é perfeitamente cognoscível quando usamos a expressão “jogar dinheiro pelo ralo”, que nos faz entender a noção de desperdício. Nem é preciso recorrer à história mundial ou a de nosso país, para comprovar o desperdício. Enquanto em muitos lares o dinheiro “escorre pelo ralo”, em outros muitos mais, são as pessoas que escorrem pelo ralo, deixando o dinheiro de fora (ou dentro do recinto inicial). A diferença portanto, entre as hipotéticas cidades sugeridas, está em que o ralo da cidade com costumes mais repressivos ou voltados para a “interioridade”, se encontra sobre imensas construções comerciais faraônicas, ao passo que o ralo da cidade de costumes mais ligados à paixões, tem sua “boca” voltada para o que se encontra debaixo de tais construções.

E se supuséssemos que em tais construções comerciais, o que há “em cima” ou “embaixo” delas, sejam apenas estacionamentos, ainda assim, poderíamos encontrar uma analogia do “dinheiro escorrendo pelo ralo”, pois a primeira cidade, de costumes mais repressivos, seria comparada ao estacionamento superior, onde as pessoas deixam seus carros e se encaminham às compras; dependendo de como retornassem aos seus veículos, se poderia dizer se “deixaram o dinheiro escorrer pelo ralo ou não”, ou, se elas próprias é que “escorreram”. Já no estacionamento inferior, o “ralo” auxiliaria a administração do estabelecimento, pois seria um índice do quanto o estabelecimento já perdeu com assaltos, ou já ganhou com o IPC. Ambos enfim, comprovariam ao governo que dirigisse tais cidades, a finalidade para a qual é feito um estacionamento, qual seja o de que “carro parado não puxa frete”. E como um governo também o é, fora do horário comercial, comprovaria que o vazio também ocupa um lugar no espaço e uma taxa de imposto territorial. A experiência do ciclo “dentro ou fora do ralo”, é enfim, um tipo de comportamento exercido por muitos cidadãos e que pode ajudar a determinar qual seja o “mundo possível” desejado.

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